Lá vai o trem com o menino

Ferreira Gullar é um grande poeta. Isso é unânime, dos irmãos Campos ao mais simples apreciador da arte poética ou de simulacros. Mas qual o tamanho da poesia? Tanto da de Gullar, como da Poesia, assim, com letra maiúscula.

Ontem, a morte de Gullar era tema em qualquer roda de amigos que tem o universo poético nas veias. Mesmo que sejam as famigeradas rodas (grupos) de whatsapp. Numa conversa de carne e osso ouvi uma declaração que me emocionou. Da importância que a poesia adquiriu na vida de alguém, depois que me conheceu e entrou de vez nesse mundo feérico, neural e atômico.

De certa forma, todos sabem o que é poesia e talvez, até, em determinado momento, alguém tenha lido uns “versos de Horácio”, mas a poesia como um dos elementos fundamentais da vida é mais raro, embora abundante nesse mundo gigantesco.

O poeta e ator Michel Melamed, certa vez, entrevistando o poeta Chacal, me presenteou com um brinquedo que passei a carregar pelo resto da vida. Chacal dizia: “eu sou aquele cara que ainda acha que a poesia vai salvar o mundo”… Então, de olhos arregalados, Melamed interrompeu, dizendo: “E não vai?”.

Não é uma relação metafísica, nem um onirismo ou uma fuga da realidade. De fato, a poesia é um estilo de vida, um religare, um aconselhamento, um aprendizado, uma metodologia. Nem melhor, nem pior que nenhuma outra.

Neste sentido, muitos circulam neste universo intenso e sensato, sempre em busca dos caminhos das pedras, das divinas comédias, das iluminuras, das folhas de relva, de ombros a suportar o mundo, o mundo grande. E esse mundo está povoado de poemas, um pode ser a luta corporal, outro pode ser sujo.

O Poema Sujo é a grande obra de Ferreira Gullar. Causou espanto quando surgiu. Primeiro lido numa roda de artistas e intelectuais, trazida datilografada, no bolso de alguém. Desde então vem nos ajudando, na vertigem do dia, a traduzir a vida, a traduzir uma coisa em outra coisa… Assim, como disse em outro momento:

Uma parte de mim
é todo mundo;
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera;
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta;
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente;
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem;
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?

E é essa questão, de vida e morte o trato universal da poesia. É o âmago da humanidade, este ínterim cósmico que nos dá a chance ser um significante neste terreno tão árduo. Talvez, o Poema Sujo, seja um roteiro de vida e morte. Foi feito, segundo o autor, num momento em que esta interrupção da vida, pra ele, era iminente. Ali ele rememora suas experiências e seus aprendizados.

E quando a gente mistura as genialidades, a vida, esta que nós temos, a única, se consagra como a oportunidade de realizar-se. E assim, Gullar segue seu destino de homem.

Lá vai o trem com o menino
Lá vai a vida a rodar
Lá vai ciranda e destino
Cidade noite a girar
Lá vai o trem sem destino
Pro dia novo encontrar
Correndo vai pela terra, vai pela serra, vai pelo mar
Cantando pela serra do luar
Correndo entre as estrelas a voar
No ar, no ar, no ar…

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Um comentário sobre “Lá vai o trem com o menino

  1. Bela abordagem. Ao invés de falar do poeta, falar da poesia e da sina do “fazer” e “fazer-se” poesia. Ninguém consegue isso plenamente, mas seguramente Gullar foi um dos que tentaram e chegaram mais longe. Quanto? Certamente menos do que alguns chegaram e mais do que muitos chegarão porque o ato de fazer poesia, para o futuro, cada vez menos se confunde com o ato de fazer-se poesia.

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