Ergo sun

“Se o demônio vem bramindo, os mesmos bramidos dão rebate do perigo, e ninguém haverá tão descuidado, ainda que esteja dormindo, que não esperte assombrado, e se acautele; porém, se o demônio vem mudo, debaixo do mesmo silêncio, em que se esconde o perigo, descansa e adormece o cuidado”.

P. Antônio Vieira – “Sermão do demônio mudo”

A guerra é triste. Mesmo a sem sangue.

Acabou a guerra legal. Sobrou a ilegal. A mulher que difama a mulher que lhe tomou o homem. O homem que esmurra o homem que lhe tomou a mulher. Tudo é rude.

Hoje morreram dois homens soterrados, no Mix Mateus, a mega cadeia timbira de supermercados. No começo da semana morreu a mãe de um candidato. “Cara de Cobra” foi morto em conflito com a polícia. Os times de candidatos insultam-se mutuamente nas redes sociais. Ou seja, independente da pressão barométrica tudo corre normal na ilha de Upaon-Açu.

“ Write it damn you, write it! What else are you good for?”

O complexo penitenciário de Pedrinhas é o Vesúvio, o Fuji, o Kilimanjaro. Nem adormecido, nem em atividade. Se fosse um calcanhar, seria o de Aquiles. Se fosse olhos, seria os de Édipo em Colono. Se fosse uma revolução, mataria Trotski com uma machadada na cabeça. Se fosse uma música seria “Metrô, linha 743”.

É o Guernica: “Per me se va ne la città dolente”…

Um campo vasto, cheiro de morte, de miséria e sofrimento futuro. Alguns estão desesperados, esperam pela lança que lhes confira o golpe de misericórdia. Mas como víboras peçonhentas ainda podem matar com sua baba cristalina, com suas ações de estremecimento de morte, ou como carniça venenosa.

Os guerreiros, de todos os lados, suados, queimados de sol e areia, perambulam nesse ínterim infinito como instante recortado.

Orações quânticas. A relatividade é um sonho mudo e preto e branco. Sentado ali, na beira do abismo (e olhando pra ele tanto que ele acabou devolvendo o olhar). É o choque que vai gerar a matéria escura?

Um campo vasto. O Liso do Sussuarão.

Este bramido de cor escura tenho ouvido no alto das portas, nos ecos das rádios, nas penas dos escribas mercenários ou lumpens, sinceros ou jalapas. Guizos, esturros, orneios, gemidos, lamentos: a bachiana em boca chiusa jamais escrita.

Em algum círculo, mais ou menos próximo do diabo, alguma porta talvez resista a ser aberta. Talvez um santo pairando sobre o solo venha para afastar de vez os condenados. Mas as portas estão cedendo, se abrindo; não importa, que devamos esquecer a esperança, afinal, este abismo é nosso: a fonte do bispo.

Agora ficam as fofoqueiras, as futriqueiras, as focinhas. O que foi feito está. É um sétimo dia (ou mais de um); artistas, deuses, criadores saem de cena. Estão atrás ou além ou acima de suas obras, invisíveis, aprimorados fora da existência, indiferentes, aparando as unhas.

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3 comentários sobre “Ergo sun

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