Eu voto como quem morre

E nestes versos de angústica rouca,
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

– Eu faço versos como quem morre.

Manuel bandeira

O povo brasileiro está a beira de dois tipos de angústia. A primeira vai durar alguns dias, a campanha do segundo turno para a Presidência da República, quando não se sabe quem vai ganhar. A segunda, os dois meses que separam a entrada do novo governo, que pode não ser tão novo assim. Vamos por duas subdivisões. A primeira é se Dilma vencer. Teremos um novo governo? A parte podre será cortada?

Primeiro é preciso que o governo entenda que a estrutura criada por Lula, que gangrenou e não poderia deixar de gangrenar, tem que ser esquecida, extirpada. Por este ralo devem escorrer abutres, hienas, micróbios…

Será possível?

Lula tem que virar passado. Era um remédio com data de validade curta, com princípio ativo de metabolização mutante. Ele não age mais, ao contrário: envenena.

Isso pode ser observado no primeiro turno. O povo está com ojeriza de conchavos, não quer saber de parêntesis. Se isso já tivesse sido resolvido nem haveria segundo turno, mas Dilma ainda reza na cartilha de Lula. É preciso escrever uma nova; Será ainda possível?

As conquistas são inegáveis, mas terrorismo – o medo da perda do Bolsa Família e etc. – é tolice, fundamentalismo ideológico. É preciso virar a página, Dilma e o projeto do PT (o do bem) ainda tem fôlego, falta coragem. Ficar retendo, protelando avanços, protegendo canalhas é sinal de fraqueza estadista, de visão de futuro. Faz a tua parte, faz o que tem que fazer e vaza!

Como por exemplo, as reformas política, fiscal, jurídica… Bom… Há o medo da santa e da profana inquisição. Então é hora de se sobrepor ao medo. Como? Juntando-se ao povo; mas de fato.

E se o Aécio vencer? Bom, aí teremos um novo governo de fato. Quase começando do zero, tendo até que dar uns passos para trás pra seguir seu caminho natural. Perderemos dois anos. O que pode acontecer então?

Desde o governo Itamar, quando FHC tomou as rédeas do país e, embarcando numa onda internacional, tirou o país enterrado por Sarney, Collor e os governos militares, de um abismo medieval; desde então tudo mudou. O PSDB fez a parte dele. A boa e a ruim – a boa foi aproveitada por Lula e o país seguiu a onda sempre em frente, conquistando espaço e distribuindo espaço. A parte ruim ficou – a privataria tucana – e está lá, debaixo do tapete, junto com tantas outras, algumas novas, bem novinhas, que já estão lá, como, por exemplo, o “não sabia” de Lula do mensalão.

A Dilma tem problemas com a Petrobrás, com os aliados suspeitos um PIB fraco, uma balança comercial comprometida, inflação em alta, enfim ela tem isso por que tá no governo, quem ganhar herdará.

O Aécio tem o aeroporto na fazenda do tio e o helicóptero do Perrella (que também é da Dilma – uma vez que não foi investigado). E tem um mandato de senador medíocre, perdeu o governo de Minas para o PT, ou seja, quem mais conhece o Aécio, não aceitou o aval dele.

“Os demais podem deixar o sermão, pois não é para eles. “.

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Ergo sun

“Se o demônio vem bramindo, os mesmos bramidos dão rebate do perigo, e ninguém haverá tão descuidado, ainda que esteja dormindo, que não esperte assombrado, e se acautele; porém, se o demônio vem mudo, debaixo do mesmo silêncio, em que se esconde o perigo, descansa e adormece o cuidado”.

P. Antônio Vieira – “Sermão do demônio mudo”

A guerra é triste. Mesmo a sem sangue.

Acabou a guerra legal. Sobrou a ilegal. A mulher que difama a mulher que lhe tomou o homem. O homem que esmurra o homem que lhe tomou a mulher. Tudo é rude.

Hoje morreram dois homens soterrados, no Mix Mateus, a mega cadeia timbira de supermercados. No começo da semana morreu a mãe de um candidato. “Cara de Cobra” foi morto em conflito com a polícia. Os times de candidatos insultam-se mutuamente nas redes sociais. Ou seja, independente da pressão barométrica tudo corre normal na ilha de Upaon-Açu.

“ Write it damn you, write it! What else are you good for?”

O complexo penitenciário de Pedrinhas é o Vesúvio, o Fuji, o Kilimanjaro. Nem adormecido, nem em atividade. Se fosse um calcanhar, seria o de Aquiles. Se fosse olhos, seria os de Édipo em Colono. Se fosse uma revolução, mataria Trotski com uma machadada na cabeça. Se fosse uma música seria “Metrô, linha 743”.

É o Guernica: “Per me se va ne la città dolente”…

Um campo vasto, cheiro de morte, de miséria e sofrimento futuro. Alguns estão desesperados, esperam pela lança que lhes confira o golpe de misericórdia. Mas como víboras peçonhentas ainda podem matar com sua baba cristalina, com suas ações de estremecimento de morte, ou como carniça venenosa.

Os guerreiros, de todos os lados, suados, queimados de sol e areia, perambulam nesse ínterim infinito como instante recortado.

Orações quânticas. A relatividade é um sonho mudo e preto e branco. Sentado ali, na beira do abismo (e olhando pra ele tanto que ele acabou devolvendo o olhar). É o choque que vai gerar a matéria escura?

Um campo vasto. O Liso do Sussuarão.

Este bramido de cor escura tenho ouvido no alto das portas, nos ecos das rádios, nas penas dos escribas mercenários ou lumpens, sinceros ou jalapas. Guizos, esturros, orneios, gemidos, lamentos: a bachiana em boca chiusa jamais escrita.

Em algum círculo, mais ou menos próximo do diabo, alguma porta talvez resista a ser aberta. Talvez um santo pairando sobre o solo venha para afastar de vez os condenados. Mas as portas estão cedendo, se abrindo; não importa, que devamos esquecer a esperança, afinal, este abismo é nosso: a fonte do bispo.

Agora ficam as fofoqueiras, as futriqueiras, as focinhas. O que foi feito está. É um sétimo dia (ou mais de um); artistas, deuses, criadores saem de cena. Estão atrás ou além ou acima de suas obras, invisíveis, aprimorados fora da existência, indiferentes, aparando as unhas.