Tenho visto sumirem muitas calçadas.

Nós, os homens, temos um campo de ação muito mais vasto e interesses mais amplos do que os animais. Mas também nós nos achamos inscritos num círculo relativamente pequeno e não conseguimos ultrapassá-lo. Posso imaginar muitas coisas, imaginar, por exemplo, que meu maior desejo seria chegar ao Polo Norte ou algo semelhante; mas só poderei querer isso com suficiente intensidade e realizar esse desejo quando ele realmente existir em mim e todo o meu ser se achar penetrado por ele.

Hermann Hesse

 Todos os dias eu meço cada milímetro das ruas pelas quais transito de minha residência, no Apeadouro, até a TV Guará, no Renascença, onde trabalho. Eu sou jornalista, dos antigos, quando ainda era preciso fazer faculdade, quando ainda era preciso estudar, conhecer as brechas das generalidades para perguntar. Isso: perguntar.

Eu sou um cara de muita sorte; sempre fui; sempre me relacionei com pessoas boas, inteligentes, cultas, sempre mais do que eu, o que me dá a oportunidade de aprender, cada dia uma coisinha.

Essa cotidianidade pode até chatear, os amigos que porventura venham a ler. Mas é isso mesmo. Creio que a vida de quase todos seja semelhante. Vivemos essas coisinhas todos os dias.

Eu já quis ser várias coisas na vida: químico, ator, escritor, comerciante, trompetista. Eu fui um pouco de cada isso, sem quantificações. Em cada uma dessas tentativas eu aprendi (ou desaprendi) algo. Hoje eu sou o produtor do Programa Avesso, aqui na TV Guará, um programa de entrevistas realizadas por Américo Azevedo Neto, outra pessoa interessantíssima que conheci.

Agora entram os milímetros de asfalto (ou não-asfalto) que meço. Em julho do ano passado, no nosso programa, tivemos a entrevista do então Secretário Municipal de Urbanismo. Ele se chama Antônio Araujo. Humilde, fala baixo, com muita coloquialidade, até com uns tropeços no vernáculo (maior do que normalmente é perdoado à oralidade). Mas ele não fugiu, nem se esquivou, nem deixou de responder a nenhuma pergunta, as vezes capciosa do Américo.

Há alguns dias eu reli um trecho de Hermann Hesse. Onde ele fala da nossa capacidade de atingir os nossos objetivos. Ele diz que não adianta querermos as estrelas, ou a força de Mestre Yoda. Fala dos nossos objetivos reais, dentro das nossas possibilidades e humanidades, como passar num concurso, conquistar a mulher amada, comprar um carro, comprar uma casa, ganhar muito dinheiro.

O Américo perguntou pro Antônio Araujo qual era o objetivo primordial dele, como urbanista. Ele nem pensou: “devolver as calçadas para São Luís. Qual o primeiro modelo de mobilidade? Andar a pé. Nós vamos devolver para os nossos cidadãos o direito de andar nas calçadas”.

Do Apeadouro pro Renascença são mais ou menos oito quilômetros. Os locais que têm calçadas estão todos tomados pelos carros, desde a Armando Vieira da Silva até a Rua dos Cedros.

Alguns meses depois, em novembro, o Antônio Araujo virou Secretário Municipal de Obras. Há alguns meses tenho observado uma grande reforma numa casa aqui na rua do Cedros. Está em fase final; ontem eles quebraram a calçada na casa. Hoje eles começaram a fazer o estacionamento onde era e deveria ser a calçada.

Ano passado o Beto, meu cabeleireiro comprou uma casa lá na Armando Vieira da Silva e passou a reformar, para mudar o salão. Me disse que todos os dias passavam dois ou três fiscais da prefeitura lá na obra (o prédio tem 4,5 metros de frente por 3,5 de fundo (sem quintal). Vocês imaginam o que acontecia.

Ali na avenida que chamamos Faixa de Gaza tem uma favela que não para de crescer, tem umas casinhas com três pavimentos. Acho que nunca passou nenhum fiscal lá.

Tenho visto sumirem muitas calçadas.

 

Anúncios

Nova rebelião em Pedrinhas

Acabo de receber mensagem de César Bombeiro, vice presidente do Sindicato dos Agentes Penitenciários, dizendo que neste momento, 18:30 há uma nova rebelião em curso na Penitenciária de Pedrinhas. Segundo César está acontecendo um grande tiroteio entre presos e policiais militares.

Depois de uma morte e esquartejamento hoje, o vulcão entra em erupção novamente. Parece que o Maranhão está virando sal. Está tudo fora de controle. Os presos estão armados e prontos para agir.

É o preço que se paga por deixar a situação atingir o limite. Agora é a administração do caos.

  

Artigo do Horror

Em nossas cidades, a maior parte da aprendizagem ocorre fora da sala de
aula. A quantidade de informações transmitidas pela imprensa excede, de longe,
a quantidade de informações transmitidas pela instrução e textos escolares

Marshall Mcluhan

O século XXI é o tempo dos conceitos. Imprensa foge da galáxia gutemberguiana como o diabo foge da luz. Blog é imprensa? A imprensa (jornais, revistas, rádios e TV) hoje mais se assemelha a xilogravuras dada. O papel manchado pelos tipos móveis, pelas linhas de chumbo ou pelo incrível off-set de meados do século passado já foi… Hoje voa, ou paira sobre as mentes conectadas do previsível universo de Mcluhan.

E onde estamos nós? Fácil: na corda bamba. Hoje somos todos expectadores de um circo de horrores que é o mundo da Comunicação; e Habermas acredita nele. A comunicação é a salvação da metanarrativa.

A modernidade de Nietzsche, o mundo com um Deus morto e um super-homem é uma realidade trancada nos cofres dos grandes laboratórios, junto com a cura do câncer, o elo perdido e os segredos do cosmos. Lá ela se revela, como uma porção de césio 137 encantando goianos ingênuos. Somos meros peixes que morrem pela boca. Ah se fossem todos peixes e houvesse um pregador paciente pra pregar pra pátria. Mas os pregadores de agora, como os de dantes (menos dois ou pouca mais) são meros sais que não salgam.

Nestes dias de horror, o Maranhão, aquele mesmo horror detectado por Marlow, no coração das trevas, é o retrato da África, nossa terra irmã. Parece que subimos um rio de desgraças, com um Kurtz/colonizador/general agonizante numa terra devastada. Se a comparação é extrema, como as extremidades da riqueza e da pobreza na nossa terra, ela já foi misturada com uma nação tão injusta quanto a que já foi dos maranhanguara: os EUA e seus modo de USAr os povos. Pra quem não conhece o Marlow do Coração das Trevas, que conheça o apocalipse, não o de João, mas o de Coppola (o homem que enriqueceu). Que tira o horror da África e põe no Vietnã, a terra devastada, e na falta do horror, agora se aproveitam do terror, inclusive o terror da mídia, um dos piores, um botãozinho para controlar o mundo.

Cadê o Marlow? Somos todos o Marlow. O horror, o horror…

É sempre preciso apertar no “play”. Começou o grande irmão!

Ou no “enter”.

Aqui estamos expostos a todas as vilanias do mundo. Aos que odeiam. Aos que torturam, aos que matam. 

E a Imprensa (a Comunicação) que peneira grosso e depois fino, que filtra, decanta e, por vezes joga fora, a imprensa que escreve, diz o que quer, o que é adequado (pra ela – o jornalismo é mera ferramenta). A prática é plena de senso, de julgo, de lides; mas os praticantes (maioria) ou é mal paga, ou é pagã, ou é boçal.

“Os demais podem deixar o sermão, pois não é pra eles”.

A eleição e o Tempo – Editorial VDR*

Editorial VDR – a eleição e o Tempo

O Maranhão está pegando fogo. O fogo da disputa, O jogo do poder. Há um governo fossilizado por ideias contínuas e ações (ou inércias) repetidas. Há um embrião sedento de conquistar o poder. No meio disso o povo, a gente comum que atravessa a cidade em busca de trabalho e sustento das famílias. Uma gente com sensação de insegurança, sensação de engarrafamento e sensação de doença. Enquanto perdura o estado de suspensão de pensamento a comunidade sofre. O sangue que escorre da luta no topo da pirâmide encharca a base onde o povo se afoga.

No meio da crise instalada no Maranhão tudo são sobras, restos, como o lixo que empesteia nossas ruas. O que vai acontecer nos próximos meses?

 De um lado o Grupo Sarney, do outro Flávio Dino. Será que o grande cacique vai dar a volta por cima e carimbar mais um mandato? Ou será que a opção que se nomeia “novo” vai inaugurar uma nova era?

Todos os dias um numeroso e nebuloso time de blogueiros, palpiteiros e jornalistas produz listas de verdades temporárias que apresentam a análise definitiva… para o dia. Mas a vida é feita de todos os amanheceres; como diz o povo: só termina quando acaba.

Uma grande questão da humanidade é o significado do tempo. O que é o tempo?, perguntava Santo Agostinho, “Se ninguém me pergunta, eu sei, se alguém me pergunta, eu não sei”. O que é o passado, o presente ou o futuro? O mesmo bom padre nos responde que não há três tempos. O que há é um presente do passado, um presente do presente e um presente do futuro.  Este último apenas definível nas nossas projeções.

Qual será o novo tempo? Com a palavra Blog  versus Blog.

 

* VDR é um programa da TV Guará, Canal 23. Vai ao ar ao vivo todos os dias às 13h.

Editorial VDR – Voz Das Ruas*

Editorial VDR – Voz Das Ruas*

Ontem, 07, era pra ter ocorrido uma coletiva de imprensa com a governadora Roseana Sarney. Foi cancelada. Nada de perguntas, nada de questionamentos. A corte se isolou. A população que fique no vácuo. Os jornalistas que se virem. Uma completa falta de respeito, de compromisso, de coragem. É o despreparo e o descaso que grita na cara de todo maranhense. O recado que nos sobra é: “não sabemos o que fazer”. Porque horas depois de dar o bolo em repórteres, fotógrafos e cinegrafistas a governadora escolheu uma emissora de TV e divulgou uma nota. Falando de seus pesares pela morte de Ana Clara, seu repúdio pelas cenas de selvageria e brutalidade dos criminosos. Quem tem que repudiar é o povo, são as pessoas que atravessam a cidade todos os dias, da cidade Olímpica ao centro, da Vila Nova ao São Francisco. Essas pessoas são alvos ambulantes, são verdadeiras marionetes ora na mão de políticos, ora na mão de bandidos. Essas pessoas têm o direito inalienável de se revoltar; a população, ela e só ela. Qualquer gestor público ou político tem o DEVER de reagir, de apresentar soluções.

O que vemos todos os dias é o aparecimentos de dados e mais dados que humilham  ainda mais o Maranhão. Estamos na ponta dos colunistas do Brasil, todos tabulando dados com a facilidade de um caçador de lesmas. Por que tudo vira motivo para denegrir um povo que sofre e não merece sofrer. Temos uma prisão lotada. Mas, ainda assim somos o estado que menos prende! No Maranhão, para cada 100 mil habitantes, temos 128,5 presos. Em São Paulo são 633! Ou seja: seis vezes mais. Será que é por que temos polícia de menos? Menos da metade do contingente necessário. Com policiais dobrando horário, auxiliados por soldados ainda em formação já atuando nas ruas. São policiais bravos, corajosos, mas atuando no limite da capacidade física e emocional. Esse é o nosso quadro.

Corremos o risco de sofrer intervenção federal. Uma medida dessa só é tomada em casos extremos. E não basta que a falha seja grave. É necessário que haja razões sólidas para se acreditar que aquele estado da federação não é capaz de se gerenciar dentro dos pilares estabelecidos pela Constituição. É necessária a existência de uma situação fora de controle. Por exemplo, para manter a integridade nacional, garantir que um poder não seja tolhido por outro, controlar a ordem pública ou assegurar os direitos humanos. E o Procurador da República Rodrigo Janot já falou em intervenção no Maranhão. Só isso já coloca a administração estadual em cheque. Está tudo fora de controle. Quando uma dúzia de jovens recém saídos da adolescência tomam conta de uma cidade é porque ela está à mercê de qualquer lobo. Quando uma população começa a ser queimada viva é por que a falta total de respeito pela vida humana chegou ao limite máximo. Já fomos a Atenas Brasileira. Tomara que não viremos a Roma Brasileira, tomara que nenhum Nero, que incendiou Roma, deixe incendiarem a cidade dos azulejos.

VDR – Voz Das Ruas é um programa da TV Guará, canal 23, que vai ao ar todos os dias às 13h.